Negócio da China

De baixo custo e crescimento veloz, o bambu vai se firmando como matéria-prima alternativa à madeira tradicional. E enfim, graças a recente medida do governo, podemos seguir o exemplo dos chineses e dar casa barata e decente a milhões de brasileiros.

O arquiteto curitibano Paulo Foggiato, 52 anos, casado com a paisagista Leila, mantinha um namoro platônico, pela internet, com o bambu. Um contratempo os levou à bancarrota, e Paulo, assumindo a paixão pela gramínea, passou a desenhar para ela cadeiras, poltronas, mesas, luminárias. Associou-se a Reinaldo Baechtold, tradicional moveleiro na bucólica Campo Alegre, norte catarinense, a 80 quilômetros de Curitiba. Inspirado na técnica chinesa, Paulo tornou-se pioneiro nacional em fabrico de laminados de bambu.
Sua empresa, Oré Brasil – oré, em tupi, é “nosso, nossa” –, vem crescendo que nem bambu (alguns sobem até 120 centímetros num dia, 5 centímetros por hora). Suas criações passaram a ganhar prêmios, como Desenho Movelsul 2004, mais três em 2009, ano em que arrasaram na I Feira Casa Brasil, na gaúcha Bento Gonçalves.
“Vendi cem mil reais de cara”, festeja ele. “O caminho parece todo aberto – sabe aquela avenida que você olha e só vê sinal verde e, lá adiante, os vermelhos se preparando para abrir?”
Os pioneiros chineses tratam a planta no feminino: é a “amiga”, a “irmã”. Consideram cada touça uma família, com mãe, filha, avó e bisavó. Todo ano aumenta, vêm mais colmos – os troncos. Após três ou quatro anos do plantio, é preciso colher as bisavós anualmente: prontas para usar, se não colhidas, apodrecem e atrapalham o desenvolvimento da família.

Paulo trabalha com a Universidade Federal de Santa Catarina em testes de laboratório. “A Associação Brasileira de Normas Técnicas não tem nada sobre bambu”, reclama, lembrando que a planta é grande sequestradora do poluente gás carbônico – até três vezes mais que florestas comuns; e libera até 30% mais oxigênio. A dimensão das possibilidades do bambu é ilustrada por sua resposta quando perguntamos o que é que, antes de fundar a Oré, ele estava fazendo: “Perdendo tempo”.

Vimos na edição anterior do Almanaque que o governo “acordou” para o bambu, e destinou 1,8 milhão de reais para 12 projetos, medida promissora. “O bambu é o negócio da China”, comemorou o pesquisador da PUC-RJ Khosrow Ghavami. Enfim, vamos nos valer dessa planta que substitui tijolo, aço, e se pode usar até em fundações e estruturas. No país em que 7 milhões de famílias moram precariamente, o barateamento da casa popular é um cenário bem confortante.

À prova de guerras, tufões e terremotos

Uma tragédia comoveu o mundo no início de 2010: o terremoto do Haiti, com perto de 200 mil mortos, a maioria em desabamentos. Ao entrevistar o engenheiro Marcos Marques na edição passada do Almanaque, perguntamos: “Prédio de bambu resiste a terremoto?”. Ele corre ao cômodo ao lado e volta com uma estante de bambu de três “andares”, como a miniatura da estrutura de um prédio, com 50 centímetros de lado e um metro e 20 de altura. Firma a base no chão e torciona a estrutura pra lá e pra cá: “Olha só”, diz ele, entusiasmado. “Se fosse concreto, romperia e desabaria.”

Refletimos então que o terremoto do Haiti seria menos devastador se lá seguissem o exemplo dos povos orientais que constroem prédios de bambu com até cinco andares. A estrutura balança mas não cai. Resiste a forças colossais – como atesta o único órgão de tubos de bambu do mundo, construído pelo padre espanhol Diego Cera em 1822 para a igreja de Tagatay, nas Filipinas. Sobreviveu a guerras, tufões e terremotos, e lá está, todo ano, homenageado com o Bamboo Organ Festival.

Protótipo de habitação social construído pelo instituto Incomun, em Aracaju.
Protótipo de habitação social construído pelo instituto Incomun, em Aracaju.

Protótipo de casa de bambu, agora com acabamento.</a>
Protótipo de casa de bambu, agora com acabamento.











Solução revolucionária para falta de moradia

A casa popular no Equador, que tem uma política para o bambu, custa em média 800 reais. E o processamento é despoluidor: produzir bambu para construção consome 50 vezes menos energia que produzir aço. Antonio Beraldo, coautor de Bambu de Corpo e Alma, também destaca que a planta, além de crescer rápido, “não requer muitos cuidados com adubos e agrotóxicos”. Para Khosrow Ghavami, só falta incentivar a produção, pois conhecimento já temos. Ele mesmo orienta projetos em vários países, inclusive China.

CURIOSIDADES
Serviu ao Pai da Aviação e ao inventor da lâmpada

Depois das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki, foi a primeira planta a aparecer. Na China, pintar bambu, mais que arte, é exercício espiritual. No Japão é, com a ameixeira e o pinheiro, uma das três plantas da boa sorte. Thomas Edison usou carvão de bambu como filamento de sua primeira lâmpada. Uma semente pode formar uma floresta em 30 a 40 anos. No 14-Bis, Santos-Dumont construiu a estrutura com hastes de bambu. Pela retidão e disposição com que busca o céu, budistas e taoístas o tomam como modelo de agir.

Segunda parte da matéria sobre bambu publicada na revista Almanaque Brasil da TAM e que pode ser acessada no seu original clicando-se aqui

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