O Bambu

A cadeia produtiva do bambu no Brasil e
em Santa Catarina

O Brasil produz e consome produtos de bambu desde antes da colonização pelos portugueses, que por aqui encontraram muitas espécies de bambus nativos usadas pelos índios, mas também trouxeram algumas espécies exóticas da Índia, da China e de outros países asiáticos. Hoje são conhecidas mais de duzentos e trinta espécies nativas em nosso país, das quais em torno de quarenta são encontradas em Santa Catarina. As espécies exóticas introduzidas no país podem ser estimadas em mais de trinta.

O consumo do bambu limitava-se inicialmente à área rural e somente na segunda metade do século vinte expandiu-se também para a área urbana, através da fabricação de móveis, de materiais de decoração e do artesanato em geral. Nos últimos dez anos houve um aumento substancial da demanda mundial por produtos de bambu e nosso país acompanhou a tendência, em função de diversos fatores favoráveis como: a crescente percepção de que se trata de um material amigável ao meio ambiente, a intensificação do comércio com a China e demais países asiáticos, o aumento da disponibilidade de informações sobre bambu na Internet, o maior poder aquisitivo da população brasileira, entre outros. Esta demanda ampliada trouxe para o Brasil uma maior difusão das tecnologias específicas da cadeia produtiva do bambu e novos projetos de pesquisa para nossas universidades. Dois acontecimentos recentes, que marcaram o ano de 2011, foram a promulgação da lei federal nº 12.484 de incentivo ao cultivo do bambu e a assinatura do acordo bilateral de cooperação entre o Brasil e a China na área do bambu.

Mas, o que é o bambu?

Os bambus não são árvores, mas sim gramíneas compostas de rizomas e de raízes em suas partes subterrâneas e de colmos, geralmente ocos, ramos e folhas em suas partes aéreas. Existem em torno de 1.250 espécies, agrupadas em mais de noventa gêneros diferentes, que são classificados em dois grandes grupos: os bambus tropicais, que formam touceiras relativamente fechadas e os bambus de clima temperado, cujos rizomas se alastram em todas as direções, formando bambuzais relativamente abertos. A distribuição geográfica de espécies nativas se dá em todos os continentes, exceto na Europa e na Antártica, sendo limitada pelos paralelos 47° N e 47° S e pela altitude em torno de 4.000 metros acima do nível do mar.

Diversas características distinguem os bambus das árvores, mas duas são muito marcantes: anualmente ocorrem brotações de novos colmos, ao lado dos existentes, formando moitas chamadas de bambuzais. Cada colmo tem vida relativamente curta, de até dez anos, mas o bambuzal como um todo é perene, permitindo a colheita anual de colmos sem colocar em risco a sua sobrevivência. Outra característica surpreendente é o diâmetro dos colmos, que não aumenta com o passar dos anos, como acontece com os troncos das árvores.

Os bambus apresentam rápido crescimento, permitindo obter a primeira colheita já no quinto ano, no caso de espécies de clima tropical. Já nas de clima temperado a primeira colheita se dá a partir do oitavo ano. A produtividade de várias espécies é comparável ou até superior à de árvores de rápido crescimento, como o eucalipto e o pinus, mas com a vantagem de proporcionar colheitas anuais (corte seletivo) ou a cada dois anos (corte raso).

O impacto do bambu no meio ambiente é positivo, em função da prestação de diversos serviços ambientais, como o combate à erosão com a sua vasta rede de rizomas próximos da superfície e a recuperação de áreas degradadas pela permanente queda de folhas, cuja incorporação no solo retém a umidade e aumenta a formação de húmus.

Foram registrados mais de dois mil usos distintos para o bambu, que podem ser agrupados nas seguintes categorias principais:

  • Agricultura: sistemas agroflorestais, quebra-vento para plantações, suporte para cultivo de flores, hortaliças e frutas diversas, sombreamento em viveiros, tubos para irrigação ou drenagem, construção (casas, galpões, pontes, cercas, carroças, balsas, etc.), produção de lenha ou carvão, alimento para o gado (folhagem), jardinagem, etc.
  • Decoração: móveis, pisos, laminados, persianas, luminárias, artesanato em geral
  • Construção: casas, edificações, estruturas, geodésicas, esquadrias, treliças, etc.
  • Utensílios: instrumentos musicais, talheres, ferramentas, brinquedos, espetos, palitos, molduras, suportes, escadas, etc.
  • Veículos e esportes: aviões, pisos de caminhões e ônibus, bicicletas, caiaques, barcos, pranchas de skate, surf e windsurf.
  • Alimentos: brotos, vinhos, licores
  • Combustíveis: lenha, geração de vapor e de energia elétrica
  • Subprodutos: celulose e papel, álcool, amido, carvão, ácido pirolenhoso, fibra de viscose (tecidos), explosivos, celofane, etc.
  • Serviços ambientais: proteção de corpos d’água (mata ciliar), combate à erosão, contenção de encostas e paisagismo, recuperação de solo degradado, habitat e alimento para animais, fixação de carbono na atmosfera.

Comparativo entre bambu e madeiras

  • Vantagens: brotação anual independe de novas mudas; os colmos já nascem com o diâmetro final e não necessitam de tempo para engrossar; os colmos atingem a altura máxima em 6 meses e depois desenvolvem ramos e folhas, amadurecendo no terceiro ano (bambus tropicais) ou no quinto ano (bambus de clima temperado). Colmos para celulose podem ser colhidos a cada 2 anos. Em comparação, o eucalipto demora sete anos e o pinus quinze anos para serem colhidos. A produtividade do bambu equivale à do eucalipto e é superior à do pinus, medida em ton/ha.ano.
  • Desvantagens: os colmos precisam ser colhidos antes de completar seu curto ciclo de vida; os colmos racham com facilidade, impedindo o uso de pregos; os colmos contem sílica, que reduz a vida útil das ferramentas de corte; os colmos contem amido, que atrai fungos e insetos após o corte. A quantidade de amido depende da espécie. Colmos usados para móveis, construção e artesanato devem ser tratados para garantir a durabilidade.

Características do cultivo de bambu

  • Produção agrícola de baixo custo
  • Retorno do investimento em menor prazo
  • Cultivo em qualquer região do Brasil
  • Mercado mundial receptivo para o bambu
  • Demanda interna é maior do que a produção

 

Espécies entouceirantes (tropicais) mais conhecidas no Brasil

  • Bambusa vulgaris: muito comum, origem China, altura até 25 m, uso para celulose, papel e laminados, tolera geadas ocasionais até -2°C, cor verde escuro, nome comum: bambu-açu.
    Bambusa vulgaris var. “vittata”: muito comum, origem China, altura até 25 m, uso para celulose, papel e laminados, tolera geadas ocasionais até -2°C, cor amarelo com listras verde escuras, nome comum: bambu imperial, bambu brasileirinho (!?)
    Bambusa tuldoides: muito comum, origem China, altura até 15 m, uso para construção e móveis, tolera geadas até -9°C, cor verde escuro, nome comum: taquara.
    Bambusa oldhamii: pouco comum, origem China, altura até 20 m, uso para construção e móveis, tolera geadas até -9°C, cor verde claro, nome comum: não tem.
    Dendrocalamus asper: comum, origem Índia, alt. até 30 m, uso para construção, laminados e brotos comestíveis, tolera geadas até -5°C, cor verde acinzentado ou marrons (colmos jovens), nome comum: bambu gigante, bambu balde.
    Dendrocalamus giganteus: pouco comum, origem Tailândia, alt. até 35 m, uso para construção e laminados, tolera geadas ocasionais até -2°C, cor verde acinzentado, nome comum: bambu gigante, bambu balde.
    Dendrocalamus latiflorus: pouco comum, origem China, alt. até 25 m, uso para construção, laminados e brotos comestíveis, tolera geadas até -4°C, cor verde escuro, nome comum: bambu gigante, bambu balde.
    Guadua angustifolia: pouco comum, origem Colômbia, Peru, Equador, alt. até 25 m, uso para construção e laminados, tolera geadas ocasionais até -2°C, tem espinhos, brotos não comestíveis, cor verde escuro com faixas brancas nos nós, nome comum: guadua.
    Guadua chacoensis: comum, origem Brasil, Paraguai e Argentina, alt. até 30 m, uso para construção e laminados, não tolera geadas, tem espinhos, brotos não comestíveis, cor verde escuro com faixas brancas nos nós, nome comum: guadua.
    Guadua tagoara: comum, origem Brasil, alt. até 10 m, uso para construção e móveis, não tolera geadas, tem espinhos, brotos não comestíveis, cor verde escuro com faixas brancas nos nós, nome comum: taquaruçu.
    Guadua superba: comum, origem Brasil, alt. até 25 m, uso para construção e móveis, não tolera geadas, tem espinhos, brotos não comestíveis, cor verde escuro com faixas brancas nos nós, nome comum: taboca.

Espécies alastrantes (clima temperado) mais conhecidas no Brasil

  • Phyllostachys aurea: muito comum, origem China, alt. até 10 m, uso para móveis, artesanato e varas de pescar, tolera geadas até -15 °C, brotos comestíveis, cor verde claro, nome comum: cana-da-índia, bambu mirim.
    Phyllostachys pubescens: comum, origem China, alt. até 25 m, uso para construção, laminados e brotos comestíveis, tolera geadas até -15°C, brotos comestíveis, cor verde acinzentado, nome comum: bambu mossô.
    Phyllostachys bambusoides: comum, origem China, alt. até 25 m, uso para construção e móveis, tolera geadas até -15°C, brotos comestíveis, nome comum: madake.
    Phyllostachys nigra: pouco comum, origem China, alt. até 10 m, uso para móveis, artesanato e varas de pescar, tolera geadas até -15°C, brotos comestíveis, nome comum: bambu preto.
    Phyllostachys nigra var. henonis: comum, origem China, alt. até 10 m, uso para móveis, artesanato e varas de pescar, tolera geadas até -15°C, brotos comestíveis, nome comum: hachiku.

O bambu em Santa Catarina

A BambuSC – Associação Catarinense do Bambu – vem acompanhando com atenção este desenvolvimento desde a sua fundação e destaca a seguir os pontos fortes que o nosso Estado e a Região Sul apresentam para a implantação da cadeia produtiva do bambu. O objetivo é despertar o interesse de novos empreendedores, do governo e do meio acadêmico para a possibilidade de transformar Santa Catarina em um estado produtor e quem sabe até exportador de produtos de bambu.

  • Clima adequado para o cultivo: quase todas as espécies de bambu podem ser cultivadas em Santa Catarina e algumas já estão sendo. No Litoral e na Região Oeste podem ser cultivados os bambus tropicais, que são todos do tipo entouceirante. A região do Planalto Catarinense é a mais fria do país e nas altitudes acima de 700 metros o clima é adequado para a maioria das espécies de bambu de clima temperado (alastrantes) e também algumas espécies de bambu entouceirantes resistentes a geadas. O bambu prefere regiões com chuvas bem distribuídas ao longo do ano e SC é um dos estados que apresenta os menores períodos de seca.
  • Agricultura familiar: em SC predominam as pequenas e médias propriedades rurais e a produção agropecuária é desenvolvida pela agricultura familiar (90% do total), frequentemente associada a cooperativas e/ou a agroindústrias. Já existem três pequenos núcleos de produtores de bambu, localizadas nas regiões de Curitibanos, São Bento do Sul e Santa Rosa de Lima.
  • Demanda atual por produtos de bambu: a) Fábricas de móveis – Na capital e nas principais cidades existem diversas fábricas de móveis, geralmente de cunho artesanal, que consomem bambu roliço. Há também uma fábrica maior, especializada em móveis de bambu laminado, que está situada em Campo Alegre, na região de São Bento do Sul (maior polo exportador de móveis do Brasil). As espécies mais usadas para móveis são dos gêneros Phyllostachys e Dendrocalamus. b) Artesanato – Em diversos pontos do Estado se fabrica artesanalmente produtos de bambu, como: cestos, tapetes, cortinas, luminárias, instrumentos musicais, material de decoração, brindes, utensílios, pranchas (skate, surf e windsurf), gaiolas, brinquedos, entre outros. Mas, faltam dados quantitativos sobre a demanda de matéria-prima de bambu. c) Agricultura – Nas propriedades rurais o bambu é consumido na forma de varas ou também de mudas, usadas para o plantio de novos bambuzais. As varas têm aplicação principalmente no tutoramento do cultivo de tomates, feijão-vagem, maracujá e outros vegetais que necessitam de um suporte para crescer. Também construções rurais leves, como cercas, galpões, escadas e pequenas pontes são muitas vezes feitas de bambu. Os plantios de novos bambuzais podem visar à produção de brotos comestíveis e de varas, ou podem ser destinados à prestação de serviços ambientais, como quebra-ventos, barreiras visuais, combate à erosão, recuperação de áreas degradadas, recomposição de matas ciliares, entre outros. d) Tratamento de efluentes sanitários ou industriais – Foram desenvolvidos vários sistemas de tratamento de efluentes, que usam o bambu em forma de colmos segmentados ou de anéis. Neste caso o bambu serve de suporte para o desenvolvimento de colônias de bactérias, que se alimentam da matéria orgânica dos efluentes. Uma empresa fornecedora de tais sistemas de tratamento está instalada na região de Tubarão e o seu consumo de bambu aumenta a cada ano. e) Demandas potenciais – A demanda atual de bambu em Santa Catarina é reprimida pela reduzida oferta. Os bambuzais existentes são insuficientes, tanto em quantidade, quanto em qualidade. Com novos plantios será possível aumentar o leque das opções de mercado, em usos como a geração de energia com biomassa de bambu, a oferta de carvão para churrasco e de carvão ativado como elemento filtrante de gases e de líquidos na indústria, a produção de brotos comestíveis, pisos e chapas de bambu laminado e até na fabricação de celulose e papel, substituindo ou complementando o uso de pinus.
  • Infraestrutura e conexões com outros mercados: O escoamento adequado da produção é proporcionado principalmente pela malha rodoviária, que interliga quase todas as sedes municipais com rodovias asfaltadas, complementada por cinco portos marítimos, três ramais ferroviários e cinco aeroportos. Para os próximos anos estão programados pesados investimentos em novas ferrovias, estradas, portos e aeroportos. As operações de importação e exportação de produtos de bambu são facilitadas pela posição estratégica que Santa Catarina tem em relação aos grandes centros de consumo dos países do MERCOSUL, bem como pela infraestrutura disponível e cada vez melhor que nos conecta com o exterior.
  • Instituições de apoio à cadeia produtiva em SC: a) UFSC (Florianópolis e Curitibanos) – oferece ensino, pesquisa e extensão em áreas ligadas ao bambu, como agronomia, botânica, engenharias (civil, química e de alimentos), arquitetura e economia. Em suas fazendas experimentais estão sendo implantados dois bambusetos, que são coleções de diferentes espécies de bambu, que servem de matéria-prima para pesquisas e também como banco de produção de mudas. Entre as pesquisas em andamento se destacam o estudo dos bambus nativos da Ilha de Santa Catarina e o desenvolvimento de técnicas de micropropagação de várias espécies de bambu para a produção de mudas em grande escala e qualidade uniforme. b) BambuSC (Florianópolis) – difusão de tecnologias do bambu, através de cursos, publicações próprias, eventos técnicos, serviços de consultoria e mantém permanente contato com especialistas no país e no exterior. c) Sítio Vagalume (Rancho Queimado) – oferece cursos e fornecimento de mudas.

O bambu está surgindo como uma nova opção de geração de empregos e renda no Brasil e também em Santa Catarina. Basta lembrar, que atualmente existem mais de duzentos milhões de hectares de terras degradadas no Brasil aguardando os investidores dispostos a transformar este passivo ambiental em ganho econômico. A silvicultura de diversas espécies de bambu oferece uma oportunidade ímpar de diversificação, complementando as monoculturas de eucalipto e de pinus. Mas, como o bambu é uma cultura permanente, é preciso definir muito bem o uso pretendido. Recomenda-se plantar no mínimo três espécies diferentes, para garantir uma maior flexibilidade no futuro. Os bambus também são uma excelente opção para compor sistemas agroflorestais, unindo a produção de alimentos com os produtos e subprodutos florestais já acima indicados. Certamente não faltará mercado para os produtos de bambu, tanto no Brasil, quanto no mundo.