Cadeia Produtiva

Por Hans-Jürgen Kleine – BambuSC – publicado na Revista O Papel, 2005.

O bambu, também chamado de taquara, ou taboca pelos índios brasileiros, é uma das plantas mais conhecidas do planeta, por sua beleza e multiplicidade de usos, sendo encontrada em climas tropicais e subtropicais. É uma planta lenhosa, monocotiledônea e angiosperma, que forma maciços florestais, mas é uma gramínea e não uma árvore. As muitas variedades somam um total de 1.250 espécies de bambu, agrupadas em 50 gêneros da tribo Bambusae, que por sua vez pertence á família Graminae. As espécies tem tamanhos que variam desde as plantas ornamentais, que enfeitam jardins e cabem em vasos, até os gigantes de 30 cm de diâmetro e altura equivalente a um prédio de 10 andares. Quanto à origem das espécies, 62% são nativas da Ásia, 34% das Américas e 4% da África e Oceania. Nenhuma espécie é nativa da Europa. Embora 75% das espécies sejam aproveitáveis, apenas 50 delas têm uso comercial já desenvolvido, sendo que 19 são prioritárias para fins econômicos.

As principais características comuns às diversas espécies são:

  • As plantas são formadas por colmos, na parte aérea e por rizomas e raízes na parte subterrânea.
  • Os colmos são cilíndricos, em geral ocos, muito resistentes e flexíveis, formados por nós e entre-nós de material lenhoso, com superfície externa lisa e sem casca.
  • Os galhos e as folhas formam-se no terço superior dos colmos e representam uma fração pequena do peso total dos mesmos.
  • O crescimento é muito rápido, atingindo a altura máxima em seis meses e a maturidade em três anos. O diâmetro não sofre incremento durante o crescimento. O rendimento florestal é excelente e chega a 40 ton/ha.ano, semelhante ao eucalipto.
  • A propagação é espontânea, através de novos brotos e dispensa plantio por mais de 100 anos na mesma área. Novas mudas são fáceis de obter também a partir da brotação de colmos enterrados, pois formam-se gemas nos diversos nós de cada colmo.
  • Os teores de celulose e de lignina dos colmos são semelhantes aos de outras madeiras, já os teores de sílica e de amido são mais elevados. O amido dos colmos atrai insetos como o caruncho e o cupim, além de muitos tipos de fungos. O ataque de insetos e fungos só ocorre depois do corte dos colmos e pode ser evitado pelo tratamento com tanino (produto natural), ou outros inseticidas/fungicidas usados para tratar madeiras em geral.
  • As fibras de celulose representam 50% do peso seco dos colmos e suas dimensões variam bastante ao longo de um mesmo colmo, mas pouco entre as diversas espécies. Suas dimensões médias são: comprimento de 1,5 a 4,0 mm; diâmetro de 0,013 a 0,020 mm e espessura da parede de 0,004 a 0,006 mm.
  • Os colmos recém cortados tem muita seiva e a umidade é maior do que das outras madeiras. A secagem natural é lenta e a secagem forçada exige cuidados para evitar rachaduras.
  • O bambu em geral é pouco exigente em relação aos tipos de solo e só não tolera terrenos, que têm alguma das seguintes características: alagado, compactado, argiloso, muito ácido e muito alcalino.
  • Quanto ao clima, pode ser plantado em diversas altitudes até um limite de 3.000 metros, dependendo da espécie. Chuvas regulares, com totais anuais entre 1.200 e 1.800 mm são ideais para uma produtividade elevada.

Usos

Com estas características gerais foi possível desenvolver muitos usos diferentes para o bambu. Os mais conhecidos são:

  • Usos sem tratamento
    • Alimento da culinária oriental (brotos)
    • Fabricação de celulose e papel
    • Fabricação de carvão vegetal combustível
    • Fabricação de carvão ativo (remédios,filtros, anti-mofo)
  • Usos com tratamento
    • Construção (casas, pontes, cercas)
    • Móveis, artesanato, decoração
    • Laminados (pisos, revestimentos, caixas)
    • Tubos (andaimes, postes, irrigação)
  • Limitações de uso
    • União entre peças de bambu: não usar pregos, para evitar rachaduras.
      Usar: parafusos com porcas, cola, barbante, tiras de borracha e/ou braçadeiras.
    • Objetos de bambu não-tratado devem ser abrigados do sol e da chuva e não devem permanecer em ambientes úmidos e pouco ventilados, para vitar a degradação por fungos.
    • Mesmo os objetos tratados com inseticidas/fungicidas não devem ser expostos desnecessariamente ao sol e à chuva.

Como este artigo visa apenas motivar o setor papeleiro a dar atenção às grandes oportunidades latentes e ainda pouco exploradas desta matéria-prima fibrosa, os outros usos fora de nosso setor não serão mais mencionados na seqüência.

Oportunidades para o setor papeleiro.

A fibra do bambu também é uma excelente matéria-prima para a indústria de celulose e papel, embora fuja do padrão sob vários aspectos. O seu rendimento florestal é competitivo, como o do eucalipto. Mas o seu crescimento é tão rápido, que permite colheitas a cada ano (corte seletivo), ou no máximo a cada dois anos (corte raso), contra um período de espera de seis a sete anos do eucalipto e 15 a 20 anos do pinus. O melhor mesmo, é o fato de dispensar novos plantios. O impacto econômico destas características é grande. Um aspecto surpreendente é que as fibras de bambu têm comprimento médio de 2,2 a 3,0 mm e não se enquadram na categoria de fibra curta, nem também na de fibra longa, ficando bem no meio-termo. Ainda como vantagem pode-se considerar o fato de não ter casca, que pudesse reduzir o seu rendimento industrial.

Mas, há também desvantagens em seu uso, que no entanto não comprometem no cômputo geral: a umidade dos colmos recém colhidos é maior do que qualquer espécie de madeira, o que afeta o custo de manuseio e transporte e o bambu tem elevados teores de sílica e de amido. A sílica dificulta a recuperação do licor preto e o amido acelera a degradação do bambu durante a estocagem. Estas desvantagens pouco afetam a indústria de celulose e papel, que já desenvolveu tecnologias adequadas para lidar com esta matéria-prima.

A grande variedade de espécies parece confundir as pessoas que começam a se interessar pelo bambu, mas a boa notícia é, que é possível obter celulose de praticamente todas as espécies, de modo competitivo. A espécie mais cultivada no Brasil é a Bambusa vulgaris e o uso principal hoje é justamente a fabricação de celulose e papel. O bambu é pouco exigente em relação aos tipos de solo e de clima e pode ser cultivado em qualquer região do país, mesmo em altitudes acima de 1.000 metros, com ocorrência de geadas e neve. Basta escolher as espécies mais adequadas. Chuvas regulares e solos bem drenados são fatores muito favoráveis ao crescimento do bambu, portanto devem ser evitadas regiões alagadas, ou regiões muito secas.

O Brasil desenvolveu nos últimos 40 anos uma forte vantagem competitiva no mercado de fibras curtas, devido à excepcional qualidade e ao baixo custo da fibra de eucalipto. Já no mercado internacional de fibras longas o Brasil é um ilustre desconhecido e a substituição da fibra de araucária pela fibra do pinus não obteve o mesmo sucesso da fibra de eucalipto, conseguindo apenas garantir a sobrevivência do mercado interno de fibra longa. O Pinus taeda, que é a espécie de fibra longa mais cultivada no Brasil, tem exigências de solo e de clima, que restringem o seu cultivo aos três estados da Região Sul. E mesmo nestas regiões a produtividade florestal e industrial do pinus tem dificuldade para competir com a do eucalipto. Não é de admirar, portanto, que 80% da produção brasileira de celulose seja obtida com fibras de eucalipto, que garantem amplas oportunidades de exportação destas fibras, na forma de celulose branqueada e de papéis de imprimir e escrever.

O mais preocupante são as crescentes importações de fibra longa no país, que já são da ordem de 1.100 ton por dia, ou 400.000 ton por ano. Pode-se perguntar: para quais tipos de papel necessitamos de fibras longas? A resposta é simples: a resistência ao rasgo, à tração e ao estouro do papel aumentam com o aumento do comprimento das fibras. Portanto, as fibras longas devem ser entendidas principalmente como fibras de reforço, que são adicionadas às fibras curtas em uma variedade de tipos de papel, como por exemplo papéis de imprensa, papéis sanitários, papéis de filtro, papéis para embalagens e outros tantos, que somados representam mais do que 50% do consumo mundial. Somente alguns poucos tipos de papel exigem 100% de fibras longas em sua composição, como é o caso de sacos e caixas de alta resistência.

Neste contexto, convém abandonar o conceito de que existem apenas dois tipos de fibra, as curtas e as longas. Está na hora de reconhecer a importância e utilidade das fibras de comprimento médio, das quais apenas duas alcançaram uso comercial até agora: o bambu (na Ásia e na América Latina) e o plátano (na América do Norte), que os norte-americanos chamam de Sycamore. Temos então três grupos de fibras, em ordem crescente de comprimento e de resistência:

  • Fibras curtas (0,7 – 1,5 mm)
  • Fibras médias (2,2 – 3,0 mm
  • Fibras longas (3,5 – 5,0 mm)

Os limites das faixas de comprimento são pouco rigorosos, mas servem para fixar o conceito e correspondem à maioria dos tipos de fibra em uso comercial no setor papeleiro mundial. Em praticamente todos os papéis, que exigem uma maior resistência, as fibras de comprimento médio podem substituir as tradicionais fibras longas, em maior ou menor percentual na composição. Este potencial está sendo pouco explorado até agora e representa uma fantástica oportunidade para países, como o Brasil, que tem grandes áreas de terra aproveitáveis e um clima tropical, ou sub-tropical. A idéia central é esta: se no momento não temos como desenvolver melhor a competitividade de nossas fibras longas, porque não investir em fibras de comprimento médio?

A prova de que isto não é apenas um sonho e que esta oportunidade está ao alcance de qualquer empresa de celulose e papel no Brasil é dada pelo exemplo das fábricas Itapagé (Maranhão) e Portela (Pernambuco), que produzem embalagens e que pertencem ao Grupo João Santos. A história de sucesso destas fábricas já foi objeto de reportagens anteriores da revista O Papel e não precisa ser repetida aqui.

A produção mundial de celulose de bambu está ao redor de 10 milhões de toneladas, sendo a China o maior fabricante, seguido pela Índia e outros países do sudoeste asiático, como Tailândia, Indonésia, Filipinas e outros. Embora a produção do Brasil ainda seja pequena, as fábricas brasileiras de bambu tem tamanho grande, em comparação com as de outros países. Portanto, quem estiver interessado em adquirir esta tecnologia, tem no Brasil representantes de peso. Atualmente a China investe pesado na duplicação de sua produção de celulose nos próximos 10 anos, sendo que a principal matéria-prima será o bambu.

Diversificação de culturas.

Não se trata de abandonar o pinus, mas complementar o seu uso com uma fibra competitiva e versátil, de rápido crescimento, pouco exigente em relação a solo e clima e que oferece uma excelente oportunidade de diversificação de culturas, acabando com o conceito de monocultura florestal, que todos gostariam de evitar mas ainda não sabem como. Uma outra vantagem importante é a fixação do homem no campo, o que não acontece com o pinus, que tem um ciclo de plantio e corte muito longo e exige intervenção maciça de mão-de-obra apenas a cada 15 a 20 anos. Outra vantagem fundamental consiste nas outras múltiplas utilidades do bambu, o que pode livrar as fábricas de celulose do ônus de ter plantios próprios, basta incentivar terceiros em seu cultivo. Muitas vezes os outros usos do bambu podem ser até mais rentáveis do que a fabricação de celulose, mas dificilmente alcançam escala comparável. Para pequenos produtores isto pode ser um incentivo. Mesmo para as empresas que só plantam eucalipto, seria oportuno complementar com bambu, para fugir da monocultura e até para reforçar a resistência de papéis, que hoje são feitos apenas com fibras curtas por falta deste tipo de fibra média no mercado.

O bambu tem uma imagem muito difundida como produto ecológico, usado amplamente pelos povos indígenas e também pelos povos da Ásia. O seu cultivo dispensa o uso de adubos, agrotóxicos e de equipamentos pesados e está livre da rotina do constante replantio na mesma área. O forte emaranhado formado pelas raízes do bambu permite usar esta planta no combate à erosão e na formação de matas ciliares ao longo dos corpos de água. Também é empregado com sucesso no margeamento de rodovias, porque proporciona bastante sombra, sem o risco de queda sobre a estrada, que apresentam as árvores em épocas de fortes ventos. No caso de veículos que saem da estrada, o bambu pode até funcionar como amortecedor, sem causar o mesmo impacto de uma árvore. Nos reflorestamentos de pinus e de eucalipto ele também pode ser usado para reduzir o impacto visual das monoculturas, plantando-o nos lugares onde as estradas passam por áreas reflorestadas.

Como se vê, sobram motivos para que as empresas papeleiras e o meio acadêmico se voltem ao aprofundamento dos conhecimentos sobre esta fantástica fibra e tornem o Brasil reconhecido também como grande produtor de fibras de celulose de comprimento médio.

Por onde começar

Em muitas regiões do país existem grandes florestas naturais de bambu, sobretudo na enorme região amazônica, onde predominam as espécies de grande diâmetro (bambu gigante), do tipo Guadua angustifolia e várias outras. O Estado do Acre é destacado na literatura, mas todos os outros estados da Região Norte tem as suas florestas, que no entanto ainda não estão devidamente mapeadas. Na Região Nordeste merecem destaque os 55.000 hectares das florestas plantadas e regularmente manejadas do já citado Grupo João Santos, no Maranhão e em Pernambuco, bem como as recentes experiências bem sucedidas de implantação de três bambuzerias em Alagoas, com apoio do Sebrae. O objetivo principal foi criar novas fontes de renda para os agricultores e diversificar a monocultura da cana-de-açúcar. Até agora os resultados são animadores e estão garantindo uma lucratividade três vezes maior do que a obtida com a cana. Também nas regiões Sudeste e Centro-Oeste existem abundantes exemplos de cultivo econômico de bambu, em alguns casos também com apoio do Sebrae, que agora está voltando a sua atenção para a Região Sul, onde hoje praticamente inexiste uso comercial do bambu. Falta conhecimento e experiência com o cultivo de espécies resistentes ao frio no Sul do Brasil, o que pode representar uma ótima oportunidade para novos empreendedores, uma vez que a China dispõe desta experiência e não tem do que se queixar neste aspecto.

Também na área do conhecimento adquirido sobre a cultura de bambu, o Brasil já dispõe de um estoque apreciável, no Instituto Agronômico de Campinas, na UNESP de Bauru/SP, no Sebrae de diversos estados e em outras entidades ligadas ao assunto. Mas certamente faltam dados econômicos mais consistentes e sistemáticos. Principalmente faltam estatísticas de produção e comercialização e uma visão mais ampla da cadeia produtiva.

Bibliografia:

AZZINI, A. e SALGADO, L. A. Possibilidades agrícolas e industriais do bambu. O Agronômico, Instituto Agronômico de Campinas, nº 33, pg. 61-80, 1981.

AZZINI, A. e BERALDO, A. L. Métodos práticos para utilização do bambu. Gráfica da UNICAMP, Campinas/SP, 14 pg., 2001.

GRAÇA, V. L. Bambu: técnicas para o cultivo e suas aplicações. Ícone, São Paulo/SP, 1988.

PEREIRA, M. A. dos R. Bambu: espécies, características e aplicações. Apostila de curso, UNESP, Bauru/SP, 2001.